Exposição Matilha por Oscar D'Ambrosio

Exposição Matilha

Criado durante a pandemia causada pela Covid, 19, o grupo de estudos de artes visuais intitulado Matilha propõe, nesta sua primeira exposição, refletir, por uma ótica multidisciplinar, sobre o termo que intitula o grupo sob uma perspectiva multifacetada tanto em termos de técnicas utilizadas como de abordagens. Cada participante desenvolve, em sua técnica, até três trabalhos de modo a melhor apresentar a sua poética dentro do tema proposto.

O significado de “matilha”, nos dicionários, aponta para um “conjunto de cães, geralmente empregados para caça”. No seu sentido figurado, porém, define uma “reunião de indivíduos exaltados contra alguém” ou ainda “grupo de vadios, de pessoas sem ocupação nem trabalho”. No universo da Marinha, o termo define um “grupo de submarinos que realizam um ataque em conjunto”.

Se tomado individualmente, cada integrante da matilha, o cão, ocupa diversos postos sociais de acordo com as distintas culturas. Na civilização egípcia, era usado tanto como animal doméstico quanto de caça. A sua simbologia foi retratada principalmente com o deus Anúbis, representado com o corpo de um humano e a cabeça de um chacal, sendo o cão o responsável por guardar as portas sagradas e guiar os mortos até o mundo espiritual.

Na mesma linha de raciocínio, na mitologia grega, responsável por boa parte da formação da cultura ocidental, há o Cérbero, célebre cão de três cabeças, que simboliza a proteção e o conhecimento secreto sobre a morte e a ressurreição, sendo o responsável por guardar a passagem que leva os mortos ao mundo dos espíritos.

Na América Central, os cães também guiam as almas para o outro lado e, por isso, segundo estudos antropológicos, seus corpos eram encontrados enterrados com os de humanos, acreditando-se que eles auxiliavam na travessia dos recém-mortos por um lago ou rio até o reino dos mortos.

Em síntese, nessas vertentes, o simbolismo do cão representa um profundo e sábio conhecimento da vida humana e do além vida. No entanto, no islamismo, os cães são vistos impuros, anti-higiênicos e maus; e os muçulmanos evitam tocar no cachorro, sendo muito associado ao conceito de estar associado a comer as sobras que encontra no lixo.

No universo da tatuagem, os cães costumam ser muito retratados para indicar fidelidade, amor, lealdade e companheirismo. Portanto, pensar o tema da “matilha” permite múltiplas entradas, todas elas, de alguma maneira, viscerais, pois o assunto está “a flor da pele” dos participantes do grupo.

Oscar D’Ambrosio é Pós-Doutor e Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, Mestre em Artes Visuais, jornalista e crítico de arte.

Projeto Matilha Encontros online e criação de uma história em torno da arte por Sandra Makowiecky

Pandemia Covid19 no ano de 2020. Recebo em abril de 2020, um convite para integrar um grupo online com artistas, sobretudo, para conversas sobre processos de criação, trocas e impressões. Não sou artista, sou uma teórica, entrei por curiosidade e por amizade. Também desejava compreender as táticas de enquadramento interpretativo, cujo vocabulário estético-crítico amplia-se agora para além das já reconhecidas expressões: regional, local, tardio, popular, tradicional, afinal, é um grupo que reúne artistas de diferentes partes de nosso imenso país, mesmo  que a prevalência seja de São Paulo.

Do grupo inicial, só conhecia um deles, pessoalmente. Outros conhecia por suas obras, trajetórias. Me sentia e às vezes ainda me sinto, uma estranha no ninho, não por falta de acolhimento, mas por falta de vivência com eles. Alguns são amigos de uma vida inteira. 

Num período de muitas  incertezas, os encontros e as trocas entre artistas e pessoas que vivenciam e apreciam arte nos incentivam a continuar trabalhando, ainda que esse grupo não fale de pandemia, nem política e nem de coisas nefastas, fora da especificidade das linguagens plásticas e de processos de criação. Contudo, todos procuram, através do trabalho artístico, dar sentido à existência, seja a sua própria ou a da coletividade. É tudo muito bom, estimulante, um bálsamo de boas energias.

Não resta dúvida que é um grupo que segue acreditando na potência transformadora da arte e na busca de superação das adversidades.

Sabemos que a especificidade do trabalho dos/as artistas visuais, difere em sua maioria, de outras manifestações artísticas de caráter eminentemente coletivo, pois permite um estado de concentração muitas vezes caracterizado pelo isolamento social, durante os processos criativos. Esse grupo encontrou uma forma de romper o isolamento social e de poder ver e conversar sobre outros trabalhos, evidenciando os processos que trazem obras à existência.

Com a pandemia, lidamos  com variadas anulações de nossas rotinas, mas criamos outra: o encontro semanal. Ficamos e continuamos ainda limitados em um presente que nos roubou a mobilidade, mas possibilitou a entrada na vida artística de novas pessoas, de conhecê-las, de evoluir através delas. Os/as artistas do grupo se mantiveram produtivos/as durante esse período crítico, uns evitando o contato com a brutal realidade, criando universos particulares, outros por se manterem ativos/as, buscando interferir nos processos políticos e culturais de suas regiões. O grupo permite um aprendizado para dentro, com leituras, reflexões, trocas, como forma de também buscar conteúdo, diminuindo as limitações do momento, insistindo  com muita disposição em sair da banalização dos dias, criando uma história que promova a união em torno da arte.

Sandra Makowiecky

Professora de Estética e História da Arte do Centro de Artes da UDESC – Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis – Santa. Crítica e historiadora da arte.

Projeto Matilha por Carlos Perktold

Todos sabem o coletivo de lobo. Quem não sabia, aprendeu com o texto de Oscar d´Ambrosio que traz uma exegese da palavra matilha. Nesta exposição e toda quarta feira pelo Google meet, esta súcia pós-moderna se reúne com novos e antigos amigos, artistas, músicos e críticos, todos admiradores da arte. Alguns nunca se encontraram pessoalmente, mas são recentes companheiros da maturidade a conviver virtualmente como se fossem amigos de infância em virtude do mútuo interesse na produção de pintura, desenho, gravura, joalheria, fotografia e música de invejáveis qualidades, acrescido de uma boa conversa a durar noventa minutos.

Neste novo mundo de muita tecnologia, muita pandemia e pouca empatia entre as pessoas, percebe-se no cotidiano que o próximo mais amado é aquele que está bem longe de nós, de preferência com um oceano a separar as partes. Conectam-se quando não há ameaça afetiva.  Este grupo não corresponde a essa assertiva.  Admiramos os seus trabalhos e, sempre que há oportunidade, alguns mais próximos geograficamente se encontram pra um exuberante jantar adornado com pizza.

Os integrantes do Projeto Matilha são de São Paulo e várias cidades do seu interior e do sul de Minas Gerais onde o inverno e o verão são inclementes com os papeis que recebem aquarela ou as telas que recebem óleo ou acrílica, além de Brasília, Florianópolis, Londrina e até esse autor de Belo Horizonte que não é artista, mas morre de inveja de quem é, todos a apresentar o que há de novidade nas suas carreiras.

O espectador atento descobrirá que nesta exposição há eméritos retratistas e paisagistas, alguns hoje pintando abstratos com enganadora simplicidade, artistas têxteis, gravuristas apaixonados pela técnica que consagrou Marcelo Grassmann, médica-joalheira, desenhistas e um fotógrafo produtor de misteriosos retratos do cotidiano ou de aviões aposentados e ceramistas de primeira grandeza. Algo é certo: não há qualquer alfaiate ou costureira, mas todos são craques nas linhas.

Carlos Perktold –  Psicanalista. Integra a ABCA e AICA.